"A essência do conhecimento consiste em aplicá-lo, uma vez possuído."
Confúcio

Operação “Eagle Claw”, Irão 1980

No dia 04 de Novembro de 1979, cinco anos após o fim do Vietname e pouco tempo depois de ter sido derrubado o governo do Xá Mohammad Reza Pahlavi no Irão por simpatizantes do Ayatollah Khomeini, um grupo de estudantes islâmicos invadiu a embaixada dos EUA em Teerão, fazendo 66 reféns entre elementos do corpo diplomático e pessoal da segurança. Alguns dos reféns são libertados nas semanas seguintes, no entanto vão ficar em cativeiro 53 reféns que seriam libertados 444 dias depois.

1. Antecedentes. A relação EUA-Irão

No final dos anos 70, o regime do Xá do Irão, um bastião regional contra a USSR, estava a perder popularidade junto do povo até que foi derrubado por um movimento islâmico liderado por Ayatollah Khomeini. O Xá foi obrigado a fugir do país e foi autorizado a entrar nos EUA, que, durante anos, haviam apoiado o seu regime com ajuda financeira e militar. O facto do Xá ter sido acolhido nos EUA desencadeou uma febre de anti-americanismo e uma onda de protestos em Teerão, exigindo a extradição do Xá e a sua entrega ao Irão para julgamento por crimes contra o povo. A onda de protestos culminou com o assalto dos estudantes islâmicos à embaixada americana no dia 04 de Novembro de 1979. O Presidente dos EUA, Jimmy Carter recusou-se a ceder às exigências dos sequestradores, e procurando evitar uma intervenção militar foram tentadas várias soluções diplomáticas por parte da administração norte-americana que foram fracassadas, obrigando o presidente Carter a cortar relações diplomáticas com o Irão e a iniciar um embargo comercial contra o país. A verdade é que as eleições norte-americanas estavam a aproximar-se e o impasse na resolução do conflito estava a afectar a imagem do presidente, pelo que este se viu obrigado a optar por uma solução militar, naquele que seria o primeiro confronto americano com militantes islâmicos.

2. A tentativa de resgate

2.1. Condições

Naquela altura os EUA não possuíam um comando conjunto das forças de operações especiais, pelo que foi necessário mobilizar pessoal e equipamento de vários serviços (US Navy, US Marine Corps, US Air Force, US Army Rangers, Delta Force, etc.). Esta situação previa uma operação complexa.

Major- General James Vaught, Comandante da Missão (esq.), Coronel Charlie Beckwith, fundador da Delta Force (dir.)

Para o efeito foi criada a Joint Task Force 1-79 sob o comando do Major-General James Vaught (US Army), tendo sido designados um conjunto de Oficiais para comandar as diversas componentes da Força-Tarefa: Coronel Charles A. Beckwith (Us Army), fundador da “1st Special Forces Operational Detachment-Delta”, vulgarmente conhecida como Delta Force, e que foi nomeado como o comandante das forças de assalto terrestres; o Coronel James H. Kyle (US Air Force), como comandante da frota aérea de asa fixa; e o Tenente-Coronel Edward Seiffert (US Marine Corps), como comandante dos helicópteros empregues na operação.


2.2. O planeado

O plano, complexo e auspicioso, tinha que ser mantido em completo segredo. Os meios envolvidos incluíam:

  • Meios navais:
  • oito helicópteros (USMC RH-53) – nome de código “Bluebeard”
  • doze aeronaves de asa fixa:
  • e vários agentes infiltrados no país.

RH-53 Sea Stallion no hangar do USS Nimitz, 1980 Tripulação MC-130

AC-130 C-141

A 01 de Abril de 1980, Jim Rhyne, piloto da CIA, transportou para o interior do Irão o Major John Carney, controlador aéreo, cuja missão era localizar e reconhecer uma pista de aterragem no deserto iraniano a cerca de 500 Km de Teerão. Uma das suas tarefas era instalar um sistema de iluminação que seria accionado remotamente a partir do ar pelas aeronaves. Este local de aterragem seria denominado de Desert One e localizava-se no Deserto de Kavir, a cerca de 90 km de Tabas, a cidade mais próxima.

Planeada para ser conduzida em duas fases, a operação consistia, na primeira noite, em fazer aterrar três MC-130 sobre Desert One, com elementos da Delta Force, controladores aéreos e condutores com conhecimentos da língua local. Três EC-130 seguiriam os MC-130, preparados para reabastecer os helicópteros RH-53 que deixariam o USS Nimitz. Desert One ficava ao lado de uma estrada, que, apesar de ser pouco usada, obrigava a que uma equipa de segurança desembarcasse primeiro para garantir a segurança do perímetro e interceptar qualquer movimento no local. Uma vez reabastecidos, os helicópteros, já com os elementos da Delta Force, seguiriam para um esconderijo, a cerca de 80 km de Teerão, denominado por Desert Two, onde se encontrariam com elementos já infiltrados no país para aguardar pelo assalto da noite seguinte.Os MC-130 e EC-130 sairiam do país. Os homens e helicópteros ficariam escondidos durante o dia seguinte e, ao anoitecer, os elementos de assalto à embaixada seguiriam para Teerão em camiões, pois uma aproximação por helicóptero seria rapidamente detectada. Na segunda noite, os MC-130 e EC-130 voariam de regresso para o interior do Irão, desta vez com cerca de uma centena de Rangers que tomariam de assalto o aeródromo de Manzariyeh, a cerca de 50 km de Teerão. Após isso aterrariam dois C-141 que iriam servir de transporte do reféns para sair do país. Os três AC-130 seriam utilizados para garantir a cobertura dos Rangers em Manzariyeh, para apoiar o assalto na embaixada e para suprimir qualquer acção por parte da força aérea iraniana. A operação de resgate teria inicio entre as 23h00 e as 24h00, altura em que os elementos da Delta Force desembarcariam dos camiões estacionados numa rua adjacente à embaixada e tomariam de assalto a embaixada. Duas equipas com metralhadoras M60 tinham como função fazer a cobertura dos portões de entrada da embaixada. Consumado o assalto e já com os reféns em sua posse, seriam chamados os helicópteros que se iriam dirigir para um estádio de futebol nas redondezas. Os elementos da Delta Force e os reféns dirigir-se-iam para o estádio de onde os helicópteros os transportariam para o aeródromo de Manzariyeh, onde aguardavam os C-141 para os transportarem para fora do país. O plano previa a destruição e abandono dos helicópteros em Manzariyeh.

Plano de resgateEra este o plano da operação, no entanto o que realmente aconteceu foi bastante diferente, naquela que ficaria na história como uma recordação desastrosa para os americanos.

2.3. Os acontecimentos

Após cinco meses de planeamento e preparação para a missão, os participantes na operação são projectados para a execução da mesma. O Coronel Beckwith, comandante das forças terrestres, estava no terreno. O Major-General Vaught, comandante da Força-Tarefa, estava no campo de aviação de Wadi Kena, no Egipto, comunicando-se com Beckwith e com Washington através do sistema de terminais de satélite portáteis. Em Washington, tudo era acompanhado pelo presidente Carter e pelo General David Jones, Chefe do Estado-Maior Conjunto.

Passava pouco das 19h00 do dia 24 de Abril de 1980, quando os oito “Bluebeard” descolam do USS Nimitz a cerca de 80 km da costa iraniana. Haviam sido precedidos pelos “Republic” e “Dragon”, que haviam descolado de Masirah. Os MC-130 transportavam 132 homens, entre os quais 93 elementos da Delta Force. Às 21h45 o “Bluebeard 6” indicou uma falha mecânica e a tripulação optou por aterrar e abandonar o helicóptero, sendo resgatados pelo “Bluebeard 8”. As aeronaves de asa fixa, que seguiam à frente, depararam-se com uma forte tempestade de areia (haboob), no entanto devido a falhas nas comunicações não foi possível avisar os helicópteros desta situação. Os pilotos dos helicópteros não tinham sido avisados desta possibilidade e não tinham treino nestas condições. Entretanto o “Bluebeard 5” teve um problema eléctrico sendo obrigado a abortar a sua participação na operação e a regressar ao USS Nimitz sem instrumentos. Devido ao silêncio-rádio não foi possível avisar Kyle e Seiffert do sucedido. Até ao momento a operação já contava com dois helicópteros como baixas. Os MC-130 e EC-130 chegaram a Desert One sem problemas de maior, aguardando a chegada dos helicópteros que começaram a chegar com cerca de uma hora de atraso. A Delta Force desembarca de dois dos MC-130, após o que, de acordo com o plano, as aeronaves abandonariam o local. Uma equipa Ranger e alguns Delta Force garantem a segurança local, no entanto a tarefa não se viria a verificar fácil. Na estrada, que supostamente era de pouco tráfego, aparece um autocarro cheio de civis iranianos, tendo sido bloqueado, no entanto atrás deste segue um camião de combustível que desobedece à ordem e é destruído por rockets de 66mm (M72 LAW). Os ocupantes do camião conseguem fugir numa carrinha que seguia atrás. Os seis helicópteros, dos oito iniciais, estavam no Desert One quando o Tenente-Coronel Seiffert foi informado que o “Bluebeard 5” estava com problemas no sistema hidráulico cuja reparação não seria possível. Com apenas cinco helicópteros disponíveis, quando o mínimo previsto para completar a missão eram seis, são obrigados a abortar. Kyle, desapontado, informa Vaught que estava em Wadi Kena no Egipto e Washington mandou suspender a missão.

EC-130 após a explosão provocada pelo embate do helicóptero Quando a força se preparava para abandonar o local, cerca das 02h40, o “Bluebeard 3” ao descolar perde o controlo e embate no “Republic 4”. Este incidente provocou a explosão e incêndio de ambos e custou a vida a oito homens salvando-se no entanto 64 elementos da Delta Force que estavam no avião. Abandonam o local sem conseguir destruir os restantes helicópteros e deixando para trás documentos classificados que comprometiam os agentes infiltrados no país. A Casa Branca anunciou o fracasso da operação às 01h00 do dia seguinte e os reféns fora transportados para outro local para evitar uma segunda tentativa de resgate. Os civis iranianos do autocarro foram posteriormente entrevistados pelas autoridades iranianas.

A 20 de Janeiro de 1981, após 444 dias de cativeiro, os reféns são libertados, ironicamente no dia em que Ronald Reagan prestou juramento como Presidente dos EUA. Alguns analistas consideram que o fracasso da operação “Eagle Claw” custou a reeleição de Carter.

A falha na ligação entre os vários serviços, que levou à morte de oito homens e à perda de sete helicópteros e um C-130, sem haver propriamente contacto com o inimigo, levou à criação do “United Satates Special Operations Command” (USSOCOM) que estaria operacional em 16 de Abril de 1987.

Para uma melhor análise e compreensão desta operação aconselhamos a visita a “The Desert One Debacle” da autoria de Mark Bowden, também autor do livro Guests of the Ayatollah: The Iran Hostage Crisis: The First Battle in America's War with Militant Islam” (veja aqui uma análise do livro) e que viria a dar origem a um documentário com o mesmo nome.

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